“Saúde mental está ligada ao meio ambiente de trabalho”, afirma Margarida Barreto

Médica do trabalho ministra palestra no último dia do Seminário Nacional sobre Acidente do Trabalho e Saúde Ocupacional

A médica do trabalho e doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de SP, Margarida Barreto, abriu os trabalhos de hoje (15/08), último dia do Seminário Nacional sobre Acidente do Trabalho e Saúde Ocupacional. A palestra teve como tema “Doenças Psicológicas – causas e conseqüências” e Margarita Barreto foi apresentada pelo presidente da Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas (Abrat) Luiz Salvador.

A palestrante iniciou sua apresentação falando do problema do conceito da saúde mental, que segundo ela pode trazer conseqüências positivas ou negativas, essas últimas freqüentemente ligadas ao stress. “A saúde mental pode ser pensada com um estado de bem-estar social”, afirmou, lembrando que ela pode ser geradora de efeitos negativos como tristeza, desânimo, raiva, mágoas e insatisfações, que podem acontecer nas relações laborais e no meio ambiente de trabalho.”

Para Margarida Barreto, o estado mental do trabalhador está diretamente ligado ao ambiente de trabalho e não apenas às relações interpessoais, ambiente que pode ser determinante para a saúde enquanto prazer ou sofrimento. “Nesse contexto, as doenças psicológicas constituem alterações do funcionamento da mente, interferindo na capacidade cognitiva e afetiva do trabalhador”, explicou. Segundo ela, o trabalhador emprega sempre pouco ou muito de sua fisiologia, cognitivo e emocional. “Não existe um tipo de função em que esses três aspectos não estejam relacionados”.

Segundo a médica do trabalho, as conseqüências das doenças psicológicas ocasionadas pelo ambiente de trabalho influenciam inclusive na vida em família, e na compreensão que o trabalhador faz de si e do outro. “Aí temos a intensificação da autocrítica, a diminuição do prazer de viver ao lado dos outros; causando o chamado transtorno mental, que está relacionado a fatores endógenos, mas também externos”, afirmou, exemplificando que essa violência física, moral e psicológica pode causar uma incapacidade prolongada de alto custo para a sociedade.

Margarida Barreto afirmou que os quadros evolutivos das doenças psicológicas do trabalhador podem resultar em stress, depressão, síndrome do pânico, idéias suicidas e até o próprio suicídio. Como exemplo disso a palestrante trouxe os números da Organização Mundial de Saúde, que apontam que os transtornos mentais são o maior fator de risco para o suicídio, e a depressão é a principal causa. A depressão representa 9% da mortalidade mundial, ou seja, mais de 5 milhões de mortes por ano em nosso planeta. São atualmente 450 milhões de pessoas que sofrem de transtorno mental, sendo 121 milhões de depressão e 51 milhões de epilepsia. “Estamos diante de uma situação preocupante, pois a cada ano acontecem milhões de suicídios em nosso planeta”, afirmou.

A palestrante falou também do problema da saúde pública brasileira, direcionada aos transtornos psicológicos. Atualmente, apenas 2,6%¨do orçamento do SUS é destinado para esse fim. “Está aquém daquilo que vem de fato ocorrendo em nosso país”, analisou.

As causas do aumento das doenças psicológicas também foram analisadas por Margarida Barreto. Segundo ela, a nova organização do trabalho, que alterou a relação entre tempo e espaço, contribui para essa realidade tão preocupante. “O cenário não é apenas produzido, mas induzido pelo mercado globalizado que exige soluções rápidas e eficazes dos trabalhadores”. Para Barreto, a exploração dos trabalhadores vem se intensificando nos últimos anos, impulsionada pelas subcontratações, terceirizações, e a diminuição da relação formal com o crescimento das pessoas jurídicas. Ao lado disso, novos eixos tecnológicos, vem exigindo cada vez mais novos conhecimentos do trabalhador, explica Barreto. “A empresa procura agora um novo tipo de trabalhador, não só com conhecimento, habilidade; mas saúde perfeita, excelência, competência e conhecimentos tecnológicos apurados. O saber-fazer transformou-se em pré-requisito. Um saber-fazer formatado, que não dá espaço para a criatividade”, afirmou.

Ao lado das exigências do mercado, de acordo com Margarida Barreto, está o crescimento da cobiça da sociedade, com metas de riquezas materiais, que possibilitem não só o reconhecimento social, mas um consumo ilimitado no espectro da sociedade. “Os meios para se conseguir isso se tornam menos importantes. A embalagem passa a ser quase tão ou até mais que o próprio produto. O superficial pode adquirir o seu fator social dependendo do poder de sedução que se mostre capaz de exercer”, afirmou.  

A palestrante analisa que as novas formas de gestão do trabalho têm tornado os trabalhadores vulneráveis ao desemprego, aos baixos salários, à precarização, à competição acirrada, à degradação do meio ambiente do trabalho. Problemas esses que favorecem a violência dentro do ambiente do trabalho. “Estamos diante de uma guerra invisível em nosso ambiente de trabalho, onde o homicídio já se converteu na principal causa de morte”. Para Margarida Barreto, essa onda de violência é resultado de um a política hegemônica e neoliberal. “Temos as variáveis da competição, da hierarquia supervalorizada, dos estágios mal definidos... E ao lado disso os atos discriminatórios também relacionados ao estado de saúde mental do trabalhador”.

“Nosso desejo como médica e que escuta todos os dias a história de descaso contra a vida é que todos vivam bem. Vivam bem não às custas de subnotificações e demissões por adoecimento. Será mais digno agüentar as desgraças da vida ou guerrear contra os problemas no ambiente de trabalho?”, questionou a palestrante, que terminou com trecho de documento da Organização Mundial de Saúde: “A saúde mental depende certa medida da justiça social, e o trabalho preventivo deve ser feito antes da fase de conflito.”

 

Para saber mais sobre o trabalho da Dra. Margarida Barreto, acesse www.assediomoral.org E-mail para Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

 

Confira a programação completa do evento no site www.seminariosacional.adv.br

 

 

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